interações medicamentosas entre antidepressivos e anestésicos locais

Possíveis interações medicamentosas entre antidepressivos e anestésicos locais

Durante a pandemia da Covid-19, o número da venda de remédios antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu 17%, de acordo com dados do Conselho Federal de Farmácias (2021).  Nesse contexto, é importante que os Dentistas estejam atentos aos cuidados especiais relacionados aos pacientes diagnosticados com doenças como depressão e ansiedade, que podem envolver a importância de uma atualização sobre possíveis interações medicamentosas entre psicofármacos e anestésicos locais. 

O primeiro passo, para garantir que o procedimento com anestesia local ocorra com tranquilidade, é a realização de uma anamnese detalhada, em que o Dentista tome conhecimento sobre todos os medicamentos utilizados pelo paciente, mesmo os que não são diretamente prescritos para o tratamento da depressão. Isso porque antidepressivos podem ser utilizados para outras finalidades, como para o tratamento da anorexia, ansiedade, síndrome do pânico, bulimia, déficit de atenção e hiperatividade, entre outros (SOUZA, 1999). 

Após a realização da anamnese, é preciso que o Dentista entenda quais são as possíveis interações medicamentosas entre antidepressivos e anestésicos locais. Entre elas, está a administração em alta dose do anestésico local com vasoconstritor do grupo das catecolaminas, que pode levar a uma elevação na concentração das catecolaminas plasmáticas, que pode resultar em efeitos colaterais potencializados em pacientes que fazem uso de certos antidepressivos. (MILLAN, 2006)

Para entender a possível reação entre antidepressivos e vasoconstritores, é preciso conhecer mais sobre o funcionamento dessas substâncias no organismo. Grande parte dos sais anestésicos causa vasodilatação periférica, por relaxar a musculatura vascular. Por isso, a utilização de vasoconstritores aos anestésicos locais trouxe avanços para a Odontologia, já que os mesmos realizam uma vasoconstrição no local onde são injetados. (FARIA, 2001). Entre os vasoconstritores mais utilizados no Brasil estão as aminas simpatomiméticas, como a adrenalina (epinefrina), a noradrenalina (norepinefrina), a levonordefrina e a fenilefrina. Outro vasoconstritor é a felipressina, um análogo sintético da vasopressina (ANDRADE, 1999). 

O conhecimento do mecanismo de ação dos antidepressivos também é importante pois, na teoria, a interação com vasoconstritores não ocorreria com os antidepressivos que inibem a recaptação de serotonina. (MILLAN, 2006). Porém, em usuários de antidepressivos tricíclicos, os efeitos colaterais como elevação da pressão arterial e arritmias cardíacas, podem ser potencializados pela administração em altas doses ou por injeção intravascular acidental de vasoconstritores como Epinefrina, Norepinefrina ou Fenilefrina (MALAMED, 2005). Por esse motivo, parece ser prudente nos pacientes usuários dos antidepressivos tricíclicos a utilização de felipressina como primeira opção de vasoconstritor em procedimentos não cirúrgicos. No caso de procedimentos onde a diminuição do sangramento transoperatório é importante, uma ótima opção será utilizar pequenas quantidades de Articaína com Epinefrina na concentração de 1:200.000, por apresentar uma quantidade de vasoconstritor 50% menor.

Por fim, é importante que Dentista e paciente conversem antes da realização do procedimento, para que haja clareza sobre os medicamentos utilizados, possibilitando assim que o Doutor avalie o melhor anestésico para ser utilizado em cada caso, levando a um procedimento odontológico mais seguro. Uma técnica anestésica correta permite o uso de uma dose segura dos anestésicos locais, assim como o efetivo controle da dor, para que o atendimento de todos os pacientes seja realizado de forma tranquila e sem intercorrências. 

Referências: 

FARIA FAC, Marzola C. Farmacologia dos anestésicos locais: considerações gerais. Parte II. J Bras Endo/Perio. 2001; 

ANDRADE, ED. Terapêutica medicamentosa em odontologia. 1. ed. São Paulo: Artes Medicas; 1999;

SOUZA, FGM. Tratamento da depressão. Rev. Bras. Psiquiatr. 1999; 

MILLAN, MJ. Multi-target strategies for the improved treatment of depressive states: conceptual foundations and neuronal substrates, drug discovery and therapeutic application. Pharmacol Ther. 2006. 

MALAMED, SF. Manual de anestesia local. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2005.



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